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Em Santos, pisa das uvas mantém viva tradição portuguesa

A tradição e os costumes portugueses nem sempre ficam restritos à gastronomia ou às festas em centros luso-brasileiros. Em Santos, há pelo menos um lugar onde a pisa das uvas acontece de verdade em um típico lagar. E mais: dessa pisa se fabricam o vinho e a aguardente.Não, não se está falando de uma cava, uma adega ou uma vinícola, mas da casa do médico Antônio Joaquim Leal, que construiu em parte de seu confortável endereço uma tasca, uma espécie de taberna onde, no país europeu, se encontram vinhos e refeições rápidas.Na Tasca do Leal, como os amigos a chamam, tem de tudo um pouco: objetos trazidos de Portugal e que remetem a sua infância, a bandeira rubro-verde pendurada, uma vitrola para tocar os fados e cantigas campestres, o chapéu de palha e a foice que a mãe usava nos campos de trigo, um conjunto de panelas de ferro minuciosamente pintadas e recuperadas e, claro, um lagar. É ali, naquele espaço fundo feito de madeira e alvenaria, que Leal deposita os 850 quilos de uvas cabernet trazidas do Sul para a pisa e o fabrico do vinho. E nada de máquinas ou equipamentos para esmagar as uvas. Na Tasca do Leal, a ordem é fabricar à moda antiga. Ele convida para a festa duas dezenas de amigos, recomenda a todos que levem uma sunga e pronto: como pede a tradição lusitana das antigas aldeias, todos entram no lagar e pisam as uvas, andando em círculos e bem devagar, ao som de músicas típicas:“Ó Rosa, arredonda a saia Ó Rosa, arredonda-a bem Ó Rosa, arredonda a saia Olha a roda que ela tem!”

Infância

“Aqui é um pedaço da minha infância, do meu Portugal. É onde me sinto bem. É onde me transporto para o passado”, diz o médico.A pisa das uvas ocorreu no último sábado, em meio a uma cantoria que durou toda a tarde. Daqui a alguns meses, quando aquele caldo tiver fermentado e o vinho ficar pronto, Antônio Leal chama os amigos novamente para “distribuir a produção”. Um traço comum permeia as rodas de conversa na Tasca do Leal, e esse traço são as histórias de vida. O próprio médico tem a sua. Veio para o Brasil em maio de 1970, aos 12 anos. Deixou em Chãs, um vilarejo do Concelho de Vila Nova de Foz Côa, as duas irmãs e os pais. Em Santos, morou e trabalhou com o tio, dono do Restaurante Olímpia. Terminados os estudos, ingressou na Faculdade de Medicina, bancada pelo pai até o quinto ano. “Quando o dinheiro acabou, fiz de tudo um pouco: dei aula, vendi livros…”, conta, emocionado. A única tristeza é não ter tido a presença do pai em sua formatura. Ele faleceu durante o curso. “Agora que sou pai e avô, fico imaginando o quanto ele deve ter sofrido por não me ver formar, por não estar presente nesse momento da minha vida”.

Superação

Na Tasca do Leal há outras histórias de portugueses que atravessaram o Atlântico. Alguns vinham em busca de emprego. Outros, para fugir da guerra e do regime salazarista (do ditador Antônio Salazar, 1889-1970).Manoel Gomes Ferreira, o Maneco, é um desses. Hoje com 64 anos, veio para Santos com os pais e mais oito irmãos, todos mais novos. Seu Manoel e dona Maria Augusta venderam tudo que tinham em Portugal e compraram aqui um box de frutas no Mercado Municipal. Traziam na bagagem duas cartas de chamada, documento essencial para provar que já vinham com emprego assegurado. “Economizávamos tudo que podíamos para comprar uma casa, progredir”, lembra Maneco. Aos poucos, a receita deu certo, e da barraca do Mercado compraram barracas na feira, e das barracas na feira vieram as padarias. Hoje, os irmãos se dividem em quatro delas: Roxy, Caiçara, Tocantins e Camões.Na Tasca do Leal, mesmo quem não é português ou descendente consegue entender o curso dessas histórias apenas ouvindo as músicas na vitrola. Há uma para cada capítulo da vida:”Ai! que saudades que eu tenho De alguns anos atrás Da minha terra querida Com meus amigos leais Ai! que saudades que eu tenho Da família que não vejo mais Como estará minha casa Como estará meu jardim Onde eu colhi os meus cravos Depois dos tempos ruins”

Postagem original. Data original: 20/03/2018 – 12:20 – Atualizado em 20/03/2018 – 12:21.

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